sábado, 21 de setembro de 2013

[sem título xxviii]

eu era pequena quando
minha mãe me pediu
para ir à padaria
buscar sal pro tempero

eu julgava fazer
uma ótima compra
levando dois pacotes
de 1kg por R$1

em casa minha mãe
censurou tanto sal
contrariada perdoou-
me por desconhecer
medidas e pitadas

muitos anos depois
eu soube que as sacas
de sal eram mensura
de bodas em alguma
nobre cultura antiga

não lembro se li ou ouvi
em artigo científico
na fila do cinema
no guia dos curiosos
ou mesmo na internet

dada essa novidade
incorporei aos hábitos
associar ao sal
união, matrimônio

jamais verifiquei
a verdade histórica
desse fato mas em
mim nasceu a ternura

por casais no mercado
que dignificam o ato
de comprar sal em vez
de se dar aos buquês

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

defini-lo

A Bruno Evangelista

i.
primeiro
e antes:
em mim

ii.
como se
flutuasse
muito e
leve

iii.
tem espaço
para longos
silêncios

iv.
no sonho
 e cinza
no dia
 a rua
na janela
 não limites

v.
meu tempo
 contado
 em teu
 passo

vi.
entre
 a saudade
entra pela porta
 da frente

vii.
à vontade
o lençol
desmancha
 mudo sabe
 quer você

viii.
linhas e
ligações
um jogo
de unir
pontos

ix.
ampliando tardes
em virtudes
das significâncias

x.
cartografar
latitudes
em planos
descarteanos 
 e esquadrinhar
 suas dúvidas
  mapeá-las
para que não ajam

xi.
torná-lo em signo
 o amor que sonho
 a noite que durmo
 o seio que conforta
minutos que vivo

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Perdi meu amor na estação de trem às 8h33


Peguei o menino Rimbaud no colo
e guardei Jesus na estante.

Analu Andrigueti

camiseta branca
e lisa
boina quadriculada
all star cor-de-burro-quando-foge

a fisionomia
não me lembro
não fui capaz
de lidar com o arrebatamento

sei que tinha
nos olhos aquela
feição de entendimento poético

nas mãos um livro
de capa dura e vermelha
uma edição 
antiga onde  tenho certeza 
li “Rimbaud”
em letras douradas

embarcou
provavelmente
no terceiro vagão
segunda porta
rumo a rio grande da serra

não voltei a vê-lo
mas gostaria de mostrar
a ele qual poema eu lia


Rimbaud no Metrô. Da série "Rimbaud in NY", de David Wojnarowicz, 1978.


quarta-feira, 11 de julho de 2012

[sem título xx]



A Bruna Ramos
urgentemente preciso
mandar meus ideais
à merda
o futuro mais distante
            é o fim do ano
                        que vem
o programa do fim
            de semana no guia
                        do jornal
sobre a mesa entre
            a bolsa e a bússola
                        números de telefone
há sempre pessoas
            em minha cama
                        de manhã
que não presentes
            são pensamentos
                        insistentes
há uma vida antiga
            em meus sonhos
                        de noite
tão distante
            e apagada
                        quanto ontem
sobre os ombros alcunhas
            de impressões alheias
                        por vezes estéreis
sob os ombros
a verdade com a qual
                        convivo eu comigo
pensei que houvesse
            mais imagens minhas
                        além das fotografias
tracei um mapa-múndi
            entorno do umbigo
                        me descobri aqui
longe das várias vozes
            da sala das cortinas
                        escancaradas
aprendi gestos
quase sociais
                        para interagir
não deixo copos cheios
            sobre a mesa do bar
                        – dá azar
nem roupas no chão
            ou beijos além do balcão
                        do bar
o gesto cortês
            um movimento
                        de cada vez
mas enquanto for eu
            o grande amor
                        de minha vida
vou fechar a porta
            para evitar o ruído
                        externo do mundo
vou fingir que você
            é tão ou mais
                        especial que eu
vou deixar o prazer
            ser meu norte
                        todos os dias
a salvo da extinção
            da má vontade
                        de viver


---


apêndice:


sempre vivi
            o coração
                        na estrada

segunda-feira, 9 de julho de 2012

[sem título xxii]

i.
se valer a pena
fazer o coração bater
questione-o através
do que faz com
que ele bata

ii.
se vale a pena
bater seu coração
questione pelo quê
ele ainda bate mesmo
que seja só pra machucá-lo

iii.
vale a pena por
o coração para
questionar seu bater

e as coisas pelas
quais ele ainda
se machuca?


iv.
por qual razão
questionar-se-ia
o coração?

o que bate, bate
o que machuca,
apenas machuca

não se limita seu alcance

v.
qual resposta quer
que o coração te dê?
- não há certo ou errado

a) que ainda dói ao ser questionado
b) que ainda ama ao ser pressionado
c) que ainda chora ao ser esquecido
d) que ainda deseja ao ser amado?
e) N.D.A.